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Alimentação Psíquica: o transtorno alimentar contextualizado

Comunicação à II Jornada Ciclos da Vida – Corpo e Psiquismo : Diálogos Interdisciplinares na Infância –  mesa: “Criança, você tem fome de que? ” - Reflexões sobre transtornos alimentares na infância Recife/PE - 18/03/2016

 

Na vulnerabilidade do recém-nascido, a necessidade de ser cuidado é premente. A sobrevivência física exige cuidados e, em termos de constituição psíquica, este cuidado deve ser exclusivamente realizado por outro humano. Em outras palavras o ser humano sobrevive e se constitui psiquicamente somente na presença e com o cuidado de outro humano. Essa presença, normalmente assegurada pela mãe ou quem exerce a função materna, realiza não só a satisfação das necessidades vitais, mas, ao mesmo tempo, promove a função de para-excitações, gerenciando as estimulações externas e internas (do próprio corpo), gerência essa que o bebê não pode realizar sozinho ainda. Algumas experiências podem colocar o bebê numa impossibilidade de elaborar as excitações e sensações, por conta de seus recursos psíquicos ainda em constituição e, por isso, a função materna deve proteger e promover formas de evitar os excessos do mundo. Com esse cuidado, o bebê vai registrando experiências onde, mesmo diante de um excesso, foi possível restabelecer seu equilíbrio e a consequente sensação de bem-estar.

 

Desta forma, vamos pensar diretamente num tipo de cuidado realizado nessa fase que é a alimentação física e fisiológica do bebê: como podemos relacionar a constituição psíquica com este cuidado?

 

Na verdade, teremos como objetivo propor e refletir sobre duas ideias relacionadas à alimentação e a constituição psíquica no recém-nascido.

 

A primeira é a ideia de que o psiquismo necessita ser “alimentado” para se constituir e, essa alimentação psíquica se relaciona em alguns aspectos, com a alimentação física e fisiológica no bebê e na criança pequena.

 

A segunda, considera que o transtorno alimentar nos bebês e crianças pequenas deve ser compreendido a partir de um contexto intersubjetivo.

 

Devo observar que toda a minha compreensão tem referência na teoria Psicanalítica e na Psicossomática Psicanalítica e, por isso, meu enfoque será acerca da compreensão do funcionamento psíquico, psiquismo e questões inconscientes

 

Sobre a primeira proposta:

 

A função materna promove a alimentação fisiológica por meio de comportamentos específicos: dar o seio, a mamadeira, regular os horários de mamadas, segurar no colo, colocar para arrotar, esperar a evacuação depois das mamadas, dentre outras atitudes e comportamentos.

 

Porém, os ritmos em que isso acontece, a qualidade da presença psíquica da mãe disponível para o seu bebê, a forma como a mãe pode interpretar as necessidades do seu bebê, o olhar de satisfação com seu bebê, as próprias sensações da mãe em relação ao seu bebê vão instituir um modo de relação por meio da qual o bebê vai registrando sensações de toda ordem: satisfação, apaziguamento, aflição, dito de outra forma, lembrando Winnicott, podemos dizer que o bebê vai registrando uma continuidade de ser ou uma descontinuidade de ser dependendo da qualidade dessa presença materna. Se o ambiente não sofrer reviravoltas, a “sensação de continuidade de ser” poderá ser conservada e dar lugar a uma condição de estabilidade, muito importante para a constituição psíquica. (WINNICOTT, 2011, p.40)

 

Por isso, os comportamentos maternos não são exclusivamente operatórios ou esvaziados de investimentos afetivos. A presença é uma presença carregada de ações e reações, interpretando o bebê e devolvendo emocionalmente como ele lhe afeta. 

Agora já podemos estabelecer uma relação: à alimentação física e fisiológica soma-se uma alimentação psíquica, pela presença psíquica da mãe, no estado em que estiver. Isto possibilita ao bebê constituir-se psiquicamente por meio dos registros sensoriais resultantes desta experiência de ser alimentado e do modo como vai ser alimentado. A mãe, ou quem exerce a função materna, poderá não estar disponível psiquicamente para garantir a barreira de para-excitações. Isso porque, ela mesma pode estar em sofrimento psíquico e centrada em si mesma.

 

Eu poderia discorrer sobre essa condição de impossibilidade da mãe ou de quem cuida e da importância dessa disponibilidade de investimentos afetivos no bebê para a sua constituição psíquica, mas não será a proposta deste texto. Ressalto somente que são inúmeros os contextos em que a mãe pode se apresentar indisponível psiquicamente. Cito o luto, depressão por exemplo; o próprio processamento psíquico para tornar-se mãe, pai; o lugar que é colocado o bebê na fantasia dos pais e da família como um todo; questões transgeracionais por outro lado também podem obstaculizar a circulação afetiva e comprometer negativamente a constituição psíquica do recém-nascido.

 

Nesses exemplos, o ambiente como um todo que cuida do bebê, sem que seja imputada culpa, estará impossibilitado de atender às suas necessidades forma satisfatória. Fico por aqui nesse tópico, sem adentrar demais em teorias sobre a constituição psíquica do recém-nascido. Mas, estabeleço pôr fim a ideia que gostaria de propor para refletirmos: a relação entre o acontecimento concomitante de uma alimentação somática e de uma alimentação psíquica.

 

 

 

Se o ambiente não está em condições psíquicas de servir ao recém-nascido, entramos no terreno do PATHOS, ou seja, do sofrimento ou patologia e vamos nos ater aqui aos transtornos alimentares na primeira infância.

 "O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente. ”

Mario Quintana

 

Sobre a segunda ideia que gostaria de propor:

 

Se o bebê necessita de uma função materna que gerencie sua experiência no início da vida, dada a sua imaturidade psíquica, ou seja, sua impossibilidade de representar psiquicamente as experiências e dar conta de excessos internos e externos, o que acontece se a mãe não está disponível?

 

Nossa hipótese é a de que: o corpo do bebê responde e tenta lidar com essa interação não satisfatória. 

 

A Psicossomática Psicanalítica, especialmente pelos autores do Instituto de Psicossomática de Paris (Kreisler; Fain & Soulé, 1981), oferece a seguinte proposição em termos de funcionamento psicossomático tanto nos bebês como nos adultos:

 

(Vou pedir licença teórica e simplificar bastante essa afirmação).

 

Na nossa relação com o mundo, desde o nascimento, nos afetamos diante de experiências que podem ser boas ou ruins, em excesso ou falta. O afeto que responde a essa experiência é manifestado pelo corpo e deve ser elaborado pelas respostas físicas e fisiológicas e também psíquicas, que seriam as representações simbólicas que nos permitem lidar com as situações.  Onde o psiquismo não pode trabalhar, o excesso de excitação volta ao seu ponto de origem, o corpo e ali será realizada uma tentativa de elaboração e restabelecimento do equilíbrio psicossomático.

 

No caso dos bebês, se a função materna falhar por uma impossibilidade, o corpo do bebê vai tentar estabelecer o equilíbrio novamente. Assim, na impossibilidade de elaborar psiquicamente sobrecargas que advêm do fato de estar vivo, ou seja, de acontecimentos da vida e não poder contar com a barreira de para-excitações, o bebê sofre somaticamente esse excesso, podendo acarretar uma subversão da ordem funcional dos aparelhos do corpo, como pode acontecer no aparelho digestivo.

 

A partir dessas considerações, podemos formular a segunda ideia que eu proponho para reflexão: o transtorno alimentar em bebês, em sua disfuncionalidade, deve ser compreendido por meio do contexto relacional da díade mãe/bebê, pais/bebê, família/bebê. Não vou me estender aqui, mas gostaria de enfatizar que não é o caso de culpabilizar a mãe ou quem cuida do bebê, e sim, contextualizar o transtorno na relação onde participam a mãe, os pais, a família por um lado e o bebê por outro. Sim, as competências e características do bebê também mobilizam na outra parte da relação respostas que compõem essa interação. 

 

Assim, o evento somático em algumas ocorrências específicas como no caso de transtornos alimentares sem causa orgânica específica, não pode ser compreendido sem a inclusão de um contexto intersubjetivo.

 

Para a psicanálise permanece a importante máxima que Freud propôs: tornar consciente o inconsciente. No caso de uma interação intersubjetiva como acontece com mães e bebês e, ainda, com o fato de que os bebês não têm seu psiquismo constituído, podemos pensar em contextualizar em que condições relacionais e do ambiente o sintoma emerge.

 

Como nos diz Winnicott, explicado por Adam Phillips: “Os sintomas são partes da maneira pela qual a criança pode lidar e transpor suas dificuldades inevitáveis em estar viva”. Por isso, eu concluo, não podemos nos fixar em sintomas e, sim na elucidação das condições da vida relacional do bebê em que eles acontecem.

 

 Tomo aqui uma frase de Adam Phillips, em seu livro Winnicott:

 

“ O que é reprimido no sintoma é o contexto que o torna inteligível”

 

Toda essa reflexão é importante para que o cuidado com o transtorno alimentar em bebês seja profícuo. A clínica com bebês, seja pediátrica, seja psicológica, deve estar voltada a uma compreensão acerca da vida do bebê como um todo. Isto inclui seu corpo e suas relações.

 

REFERÊNCIAS:

 

Kreisler, L.; Fain, M.; Soulé, M. (1981). A criança e seu corpo: a psicossomática da primeira infância. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

 

Phillips, A. (2006). Winnicott. Tradução: Alessandra Siedschalg.  Aparecida, SP: Ideias & Letras.

 

Winnicott, D.W. (2011).Crescimento e desenvolvimento na fase imatura.  In mesmo autor. A família e o desenvolvimento individual. Tradução: Marcelo Brandão Cippola. 4ª ed., São Paulo: Martins Fontes, cap. 3, pg. 40.

 

 

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